Se aceitei este emprego, é porque estava mesmo necessitada, na verdade já nem dinheiro tinha para pagar o seguro do carro, já tinha dado todas as voltas possível a imaginar o que poderia vender para conseguir algum dinheiro. Assim em vez do rim, aceitei este emprego.
Claro que me comporto, chego a horas, tento fazer o meu trabalho (digo tento, porque nem sempre é fácil compreender o que realmente querem de nós), tento ser simpática (há sempre alguém para quem é difícil sorrir genuinamente), poças, acreditem que estou mesmo a tentar.
Mas se estou a tentar, o meu grande objetivo, principalmente no mês passado era o ordenado e por as minhas contas em dia. Sim já só tento pensar o básico, um dia de cada vez, pagar as coisas que têm mesmo de ser, e depois logo se vê o resto. Vai-se sobrevivendo, não vivendo.
Mas o fim do mês passou e nada, e veio o dia 1, e o dia 2 e nada, e passou o dia 3 e o 4 e eu já estava a pensar que mais uma vez não me iam pagar, e lá me ia eu embora, sem dinheiro nenhum, ainda por cima, já tendo gasto tanto, em gasolina, até com ao tupperwares do almoço que me enchem logo a máquina de lavar, e estou a gatar mais água e eletricidade do que o normal, já para não falar no dinheiro que largo todos os dias com os arrumadores para conseguir estacionar o carro (isto de trabalhar não sai nada barato!). E veio o dia 5 e o 6 e eu já estava a pensar que se não me pagassem até ao dia 8 eu ia apresentar queixa do tribunal do trabalho. Mas no dia 8 lá entro o suposto ordenado.
Porque é que digo suposto? Primeiro o valor base não tinha sido o que eu tinha acordado, mas como precisava acabei por me calar. Mas no ordenado, como base ainda vem menos!!! Menos!! Nem sequer deu para fazer descontos para o IRS. Perguntei porquê, disseram que foi porque só trabalhei 21 dias, SÓ 21 DIAS??? Como só, fevereiro só tem 20 dias uteis, ainda vou receber menos? Vão alterar-me sempre o base.
É verdade, não vou negar, sempre tive como um dos meus “guilty pleasures” ver a Anatomia de Grey. Digo isto porque sempre que acontece uma mega desgraça, eu digo que nunca mais vou ver, mas acabo sempre agarrada à televisão.
Então quando o Derek morreu, eu disse a toda a gente que nunca mais ia ver “aquela porcaria”, e pimba, assim que começou nova temporada, lá estava eu agarrada.
A verdade é que vamos lá a ver, não faz mal, e acabamos a conhecer as personagens todas e sabe bem ficar um bocadinho no sofá e desligar da realidade.
Só que esta ultima temporada, eu esqueci-me que ia dar e não vi o primeiro episódio, e já não me lembro o que aconteceu, mas também não consegui ver o segundo, e quando fui para gravar o terceiro, a box teve um fanico e não gravou. Ora eu interpretei tudo isto como um sinal, agora é que vou deixar de ver a Anatomia de Grey, pronto!
Mas a verdade é que eu pensava que lá no fundo eu ia de algum modo apanhar a reposição e ver esta temporada em outra altura.
Só que estava semana, lá estava eu cansada no sofá de comando na mão e não é que apanhei o início de um episódio dos novos… e no fim do episódio deu-me assim a modos que uma epifania.
Já devo ter perdido meia temporada, mas as outras 14 temporadas que vi, já vi lá acontecer de tudo, e não é que este episódio foi mais do mesmo, mais uma personagem doente, mais um cancro, mais um tumor, mais um trama, mais uma morte… resumindo, mais do mesmo.
E de repente parece que se deu um clique qualquer em mim, e acho que é mesmo desta que deixo de ver. Pronto, para mim a série acabou. Não conseguem fazer mais nada de novo. Era assim tão mau terminarem a série com pelo menos metade dos personagens originais vivos, de saúde e felizes?
Bom, lá finalmente pode começar a trabalhar, já tinha cadeira, secretária (uma mesa horrível, gigantesca e em vidro), o portátil (que passa mais tempo parado a pensar do que a estátua do Rodin “o pensador”), programas… já vamos lá meter mãos à obra.
E lá me entregaram finalmente o contrato para assinar. E NÃO É QUE O VALOR QUE FOI FALADO COMO LÍQUIDO, VEM COMO BRUTO!!!
Passei-me dos carretos. Mas depois de muito discutir, com eles sempre a teimar que o valor sempre foi falado como bruto, e eu a dizer que não, era líquido, eu acabei por desistir. Ora eu não tinha emprego, eu já nem tinha dinheiro, que posso eu fazer? A única maneira de levar a minha avante era eu sair, mas não posso, preciso mesmo de emprego, preciso mesmo de um ordenado.
Então lá me trouxeram a custo e passado uma semana, um portátil super velho, todo sujo, com diversas amolgadelas no monitor e já com pixéis queimados… e formatado.
Ao que eu tive se inspirar muito fundo, e perguntar: - “Então e programas?”
Eles – “Programas?”
Ai meu Deus… -“Sim, programas, nem que seja pelo menos o office. Mas para trabalhar no que me contrataram, preciso de programas de edição de imagem.”
-“Olhe, o office, eu tenho aqui do meu que comprei e você pode instalar é gratuito por um ano.”
-“OK” (um ano é o tempo do contrato).
-“E esses programas que você precisa, quanto são? Não dá para piratear?”
(Eu respondo à questão de piratear os programas ou mando isto tudo à fava?)
-“O valor eu teria de ver, como podem imaginar não sei de cor, provavelmente uns 500€, não sei”.
- “Épá… isso tem de dar para piratear.”
- “Olhem que isso é ilegal, ainda “alguém” chama uma inspeção.” (o alguém seria eu, evidentemente).