Ora, lá fui eu para começar num novo emprego, ano novo trabalho novo, tentar manter a fé, força, força, vai tudo correr bem…
Cheguei às nove em ponto e lá fiquei eu… a olhar para as paredes, só chegou mais alguém por volta das dez, e ficaram muito admirados, pensaram que me tinham tido para no primeiro dia vir mais tarde (não, não disseram).
- E então onde é o meu lugar?
- É aqui, é aqui que se vai sentar.
- Pois muito bem, mas… e computador?
-O quê, não trouxe o seu?
- O MEU???
- Sim, o seu!
- O MEU???
- Sim.
(Só podem estar a gozar comigo, isto está mesmo a acontecer? O que é que eu faço?)
- Eu não tenho portátil, eu não posso trazer o meu computar (por acaso até tenho, mas era mais o que faltava andar com o meu portátil velhinho de um lado para o outro, e o meu marido, ficava sem computador? Mas o mais certo era o computador morrer na primeira semana. Mas isto está mesmo a acontecer-me?)
- Não tem portátil, ora que chatice, e agora como fazemos?
(Perdi a cabeça) – Sei lá como é que fazem, arranjam-me um computador? Sei lá, querem que vá embora? (já estou por tudo)
- Não, não, fique, e vá arrumando a sala, vamos ver o que podemos fazer.
(A SÉRIO, ISTO É PARA ALGUM PROGRAMA DE TELEVISÃO? ESTÃO A GOZAR COMIGO? SÓ PODE SER BINCADEIRINHA)
Ora a entrevista foi assim. Ligaram-me uma semana antes, o que hoje em dia não é nada habitual, querem logo no próprio dia ou logo no dia a seguir, e isso já me deixou nervosa, de qualquer modo esperar uma semana já me ia deixar super nervosa. E marcaram a entrevista logo para o dia a seguir ao dia de Natal (o único problema é que o dia a seguir ao natal é como o dia a seguir a uma noitada, ainda estamos no rescaldo do bacalhau e das couves), mas pronto, lá foi eu.
Quando cheguei já lá estava outra moça à espera e pediram-me desculpas porque estava muito atrasados (hoje sei que só eu e ela fomos à entrevista, e estavam atrasados porque nunca chegam a horas).
Quando finalmente foi a minha vez, (36 minutos depois da hora marcada) a entrevista foi relativamente normal, se é que uma entrevista alguma vez se pode denominar de normal.
No fim (cansada de tanta entrevista, nem perguntei se depois diziam alguma coisa ou quanto tempo ia demorar o processo, blá, bla, blá) vim-me embora e pronto.
Quando cheguei a casa, e já me estava a despir para ir fazer o almoço, ligaram-me de volta e pediram para voltar lá… ok, é estranho, logo no próprio dia ainda nem tinha passado uma hora, mas lá fui eu outra vez.
Começaram por dizer que tinham gostado muito de mim (claro que ai agarraram-me logo que nem um peixe por um anzol) mas que não tinham dinheiro (WHAT????) se dava para me fazer um estágio (NÃO!) e eu disse que não, mas eles insistiram, “então mas se por acaso for mãe solteira dá para fazer aqui este estágio”, NÃO! Eles “mas e o seu marido, não está desempregado? Se for desempregado, dá para a por neste estágio.” NÃO! “Ora e se….”. Tive de parar e dizer que estágio não aceitava (se não têm dinheiro não ponham anúncios!, mas não disse isto) então eles propuseram-me menos 100€ do que tinham pedido e pronto, lá acabei eu por aceitar.
Mas esperem, acho que ainda não é motivo para gritar YUPY!
Até porque acho que o mundo já não tem volta a dar, muito menos os patrões deste mundo.
Mas acho que descobri um dos problemas.
Um dos problemas é que me mudei de Lisboa para o distrito de Setúbal e acho finalmente descobri o problema deste distrito, é o IPS.
E porquê perguntam vocês?
Ora porque nestes últimos empregos, a maior parte dos funcionários são estagiários. Por exemplo, este trabalho foi exatamente como o anterior, vejo pessoas e penso que deve ser uma empresa, mais ou menos, já com alguns funcionários o que significa alguma dimensão que por sua vez se reverte em negócio que dá estabilidade à empresa, mas quando finalmente converso com as pessoas, afinal são todos estagiários, na última foi assim e eles até já estavam todos de saída e lá fiquei eu sozinha e aqui pelos visto também é assim.
E o IPS tem tantos cursos (o que é bom) mas há estagiários de todas as áreas.
O segundo problema que acabo de analisar e é em seguimento do primeiro, é que estes estagiários estão todos na casa dos 20, SÃO CRIANÇAS, e são crianças inocentes cheias de vontade.
Ora, eles fazem tudo, nada os chateia nem cansa, trazem os seus próprios portáteis e até vão cortar uma árvore e constroem as próprias secretárias e respetivas cadeiras. Resumindo, que mais pode um patrão pedir??? Claro que eles sã o inferno para alguém como eu, na casa dos 40, desempregada, sem dinheiro, e cansada de tudo e mais alguma coisa.
E depois como posso eu querer receber mais do que o ordenado mínimo, se mais de metade da empresa trabalha e não recebe nada, ou está a receber pelo IEFP e a empresa não tem custos?
Já vos conto como foi a entrevista para este emprego.