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Lolita no Arame

Lolita no Arame

27
Set18

Remoer

lolita

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Fiquei a remoer o facto de o chefe não ter ficado surpreendido, nem ter tentado demover-me. Se calhar foi um alívio para ele, assim já não tem de me pagar um ordenado que nem ele podia pagar.

Mas poças, sofri tanto, tentei tanto que aquilo desse certo. E nada, do outro lado nada.

Como se eu não fosse nada.

Senti-me nada.

 

Sim, senti um enorme alívio, ainda o sinto. Mas também já sinto medo, o medo do desconhecido, do “e agora”.

Tenho tanto medo.

Mas sei que fiz bem, porque o alívio, a sensação de bem-estar está muito acima do meu medo, e acreditem, eu tenho muito medo.

10
Set18

Luz

lolita

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 Fiquei a remoer o facto de não me poderem pagar o ordenado por inteiro, e fiquei a fingir que tinha trabalho, mas passei o dia num stress numa angústia desnorteante.

Cada vez que passavam por mim, eu assustava-me, literalmente dava um saltinho da cadeira.

Tentei meter na cabeça que se não me davam trabalho, se não havia nada para fazer, eu não devia ter vergonha de não estar a fazer nada, mas custava-me tanto.

Eu sabia que não tinha sido eu a obrigar eles a contratar-me, e que não fiz mal a ninguém, estava lá porque eles quiseram, mas se eles quiseram porque é que não pagavam? Não pagavam porque a empresa era mixuruca, não tinha mesmo como pagar… a minha cabeça não parava nem um segundo, e a cada segundo eu sentia-me pior, e já não era só mentalmente, já me sentia mal fisicamente, doía-me tudo.

Quando falei com a minha mãe, disse-lhe algo que me tocou fundo, disse que já não me reconhecia, eu que sempre reclamei, quando via aquelas reportagens que infelizmente são regulares nos noticiários com trabalhadores a queixarem-se que já não recebiam há mais de seis meses, eu via essas reportagens e dizia logo “havia de ser comigo, nem um mês eu ficava lá se não me pagassem”. E afinal infelizmente não estava a trabalhar por prazer, não estava a trabalhar para ter uma carreira, estava a trabalhar porque precisava do ordenado, e em menos de dois meses esse ordenado vinha tarde e não completo.

No fim-de-semana não consegui pregar olho, acordava cheia de dores, em todo o lado, teimei que não queria ir ao hospital a menos que tivesse febre, se tivesse febre é porque era algo real, sim, eu já acreditava que as dores horrível que sentia só podiam ser de origem psicologia, mas doía de verdade, eu acordava com dores, eu não conseguia descansar por causa das dores.

Na segunda-feira, ao conduzir para o trabalho, estava tão cansada que dei-me conta que já não conseguia bem distinguir a realidade. Pensei tantas vezes que me despedia, que já não tinha a certeza se já o tinha feito ou não, estava cansada e baralhada e assim que estacionei (e sim, senti que também não estava bem para andar com um carro na estrada), mas assim que estacionei tomei uma decisão como se fosse uma pedra que tivesse de manter agarrada ao peito, e entrei na empresa com as mãos como que agarrando essa pedra. Entrei e olhei para o patrão e disse apenas que eu não era a pessoa indicada para aquele trabalho (não queria dizer mais mada, não queria ofender, e muito menos ser ofendida, só queria ser rápida) ao que ele disse ok.

 

E pronto, foi assim, sai de lá e atirei a “pedra” ao chão e respirei. 

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