Ainda não vi o filme, então depois de toda a polémica à volta dele, mas mesmo assim quero vê-lo, mas primeiro queria acabar de ler os livros.
Primeiro quero dizer que sei que somos todos pessoas diferentes, e digo porquê, porque falei com pessoas que leram o primeiro livro da Série da Área X “Aniquilação”, e simplesmente leram, gostaram ou não gostaram, mas eu li e imaginei e ao imaginar senti, então para mim o primeiro livro foi um filme de terror, com coisas medonhas a passarem-se, tive medo, não queria que ela entrasse, que ela fosse, etc. Mas na verdade até só me apetecia era apanhar a bióloga a jeito e dar-lhe uns valentes tabefes. Eu sou assim, não leio só, sinto, invento ainda mais a personagem, vivo o momento com ela e como se fosse ela, por isso o primeiro livro gostei, mas foi difícil como se eu mesma tivesse que ter entrado na área X.
O segundo “Autoridade” confesso que gostei mais, até porque gostei mais da personagem do Control, li mais rápido, avida por saber afinal o que se passou? Gostei das voltinhas todas e li a correr, queria saber o resto, queria mesmo.
Mas tive de esperar que o terceiro livro fosse publicado.
E o título em si já diz tudo “Aceitação” ou não.
A memória é uma coisa esquisita, ás vezes não sabemos se fizemos ou dissemos algo ou se só imaginamos, o tempo vai apagando algumas coisas. Porque é que conto isto? Porque isto é algo que trago comigo à décadas, que às vezes nunca vamos saber certas coisas, e temos de nos conformar com isso dou damos em malucos.
Não sei se cheguei realmente a perguntar à minha avó porque é que ela não gostava de mim, algo na minha memória diz-me que lhe fiz esta pergunta e que ela respondeu apenas com um encolher de ombros, algo que me marcou, mas a verdade é que já nem acredito que eu tive a coragem de fazer a pergunta. Mas ela morreu algum tempo depois, e senti que tinha de guardar essa sensação de não saber a resposta. A resposta podia ser tanta coisa, afinal ela nasceu em 1917… tínhamos um buraco geracional entre nós enorme, se calhar ela nunca me poderia dizer que me amava porque ela não tinha sido educada assim, e já eu cresci agarrada à televisão a ver séries americanos com famílias a dizerem constantemente que se amavam uns aos outros. Se calhar ela só gostava mais dos outros netos do que de mim, mas isso não fazia que ela não gostasse de mim, ou se calhar ela queria que eu fosse mais… sei lá…
E é mesmo disto que eu queria falar, é que há tanta coisa que nunca vamos saber, tanta, a história normalmente é escrita por outros depois de acontecer, e até as autobiografias podem ser adocicadas pelos seus autores.
E aqui volto à “Aceitação”, acho até que o livro se chama assim por isso mesmo, temos de aceitar que algumas coisas acontecem vá-se lá saber o porquê.
Ok, li o livro de enfiada porque queria saber o porquê, e fiquei na mesma. Mas aqui entra outra coisa que me deu que pensar, interessa mesmo a história ou as personagens que a vivem e que ficamos a conhecer?
No final choramos e rimos pelas personagens de que gostamos ou pelo que eles viveram ou descobriram?
No meu ultimo post falei que me chamaram para uma entrevista, mas tive de pedir a morada, pois esta não constava em lado nenhum, o que para mim serviu logo de sinal de alerta.
Na verdade ultimamente tudo serve de sinal de alerta para mim, e o meu nível de ansiedade está sempre no máximo.
Mas lá fui eu, de resto vou sempre a todas as entrevistas, preciso de emprego, mas estou num tal estado, e já passei por tantas empresas que tenho uma lista de coisas que não quero. Mas tenho um receio, será que eu coloquei demasiados pormenores nessa lista para me sabotar a mim mesma, ou já não existem empresas “normais”?! Pois não sei.
Mas uma das características que consta no topo da minha lista de não quero, é não querer trabalhar mais em empresas familiares, e esta empresa desta entrevista, são apenas três pessoas, isso é bom ou mau? Eu começo a achar que é mau, porque nunca conheci nenhuma onde apenas três pessoas fosse bom, e essas três pessoas, dois são amigos de infância e o terceiro é o sogro de um deles. Mais uma vez, eu sei que preciso de trabalhar, mas se a minha cabeça tivesse instalado um daqueles alarmes japoneses para avisar que vem lá um tsunami, isto aqui dentro do meu cérebro, era um barulho que não se podia.
Assim sendo acho que posso dizer que é uma empresa familiar, certo?
Outro dos aspectos que eu não queria, era trabalhar muito longe de casa, e no meio do nada. Não comecem já a pensar que eu sou picuinhas e parva, etc., a verdade é que não estou bem, se estivesse bem, não tinha ataques de pânico e ansiedade, e não tomava ansiolíticos nem tinha recorrido a ajuda médica, acreditem. A verdade é que as viagens longas de carro, fazem a minha mente vaguear por coisas que me fazem mal, e o trânsito deixa-me num estado terrível de nervos, já para não falar no dinheiro que se gasta em gasolina, e logo assim parte do ordenado já tem dono, e não sou eu! E no meio do nada também é mau, não poder sair da empresa e ir a uma café, ver pessoas ver pessoas diferentes, ter cafés à escolha, e uma loja ou outra também é bom, ou gente apenas a passar na rua também não é mau.
Nestes meus últimos três empregos quando eu me sentia mesmo mal, a minha família e amigos recomendam que eu saísse e desse uma volta, quando voltasse a cabeça de certeza já estava melhor. Mas o que pelos vistos eles não compreendem é que para mim isso não era opção. Um deles era num pequeno complexo industrial cujos barracões estavam todos vazios à excepção do que eu trabalhava, agora com algum distanciamento, posso dizer que quando saia nem era assim tão mau, dava a volta ao complexo e via campos e campos de plantações de morangos, mas era só, não existia mais nada, e sei que os meus colegas pensavam que eu era maluca por andar ali às voltas. No penúltimo emprego aquilo ficava numa zona mesmo má, cá fora de um lado era a estrada de prostitutas e do outro de prostitutos, e vaguear por lá não era mesmo nada recomendável. No ultimo era debaixo do viaduto da auto-estrada, com um sucateiro como vizinho e uma recta enorme onde só passavam ora sem-abrigos com carrinhos de supermercado, daquelas imagens que muita gente pensa que só existe na américa, ou carrinhas de ciganos que de vez enquanto paravam lá e faziam festas e o meu desespero de ali trabalham faia-me sonhar que uma das fogueiras da festa ia ficar descontrolada e incendiava aquilo todo, mas isso nunca aconteceu, o pior que aconteceu foi matarem alguém lá à porta, mas eu não vi nada (ainda bem, não preciso de mais traumas). Por isso chegar para uma entrevista e ver que fica no local onde Judas perdeu as botas não me entusiasma nada.
E depois de tudo o que passei na ultima empresa onde trabalhei, perguntarem-me na entrevista se não me importo de ouvir asneiras porque eles dizem muitas, tive de ser honesta e dizer que não gosto, não sou pudica, mas não vejo necessidade de num ambiente tão pequeno dizerem asneiras… também me perguntaram se gosto de futebol porque eles sendo todos homens falam muito de futebol, e aqui digo-vos honestamente que se não fosse eu querer mesmo um emprego, eu com esta pergunta tinha-me levantado e vindo embora, mas fiquei, e meti o meu melhor sorriso e tentei responder a tudo o mais correctamente possível.
Resultado? Agora estou a viver em pânico que eles me liguem e digam que fui escolhida.
Não sei do que tenho mais medo, de não conseguir arranjar emprego ou de arranjar e de ser igual aos últimos sítios por onde tenho passado.
Estou farta de incompetentes e gente avariada.
Na verdade estava a pensar nisto quando recebo um e-mail para ir a uma entrevista, mas não dizem a morada, fui procurar o site da empresa e não tem morada, na página do facebook não tem morada, em lado nenhum aparece a morada. Mas como que raio uma empresa pretende vingar hoje em dia se tem medo/vergonha/ou sei lá que motivo de dizer a morada?
E como devo eu dizer que vou se não sei onde ir?
E pronto, fico logo sem vontade, porque acreditem, não consigo aturar mais malucos, a sério!
Como vos contei o meu médico acha que eu sou uma pessoa “nervosa” e outra coisa peculiar sobre o meu médico de família, é que ele odeia medicamentos. Então a solução que ele durante anos e anos a fio me sugere é que vá dar uma corridinha…
E tem até lógica o conselho dele, correr produz uma hormona que nos faz sentir bem, é verdade. Aqui a questão é que nem tudo é assim tão simples, “vai correr que isso passa”, quem dera que fosse assim, que correndo nunca mais ia precisar de arranjar emprego, o dinheiro ia aparecer na estrada, correndo nunca mais ia ter chatices ou dificuldades ou dores, ou seja o que for. Mas não é assim.
Mas não pensem que nunca tentei.
Já corri sem ter sido precisa o médico recomendar.
E corri quando ainda não era moda fazer jogging. Corri quando correr era apenas correr.
E sim, é verdade que sabe bem, sabe bem levar com o vento da cara, sabe bem suar e sentimo-nos invencíveis, sabe bem tentar ultrapassar as nossas dores, e até sabem bem as dores que sentimos depois.
Eu cheguei até a participar em provas de atletismo, e se calhar foi exactamente isto que me fez perder a vontade por correr.
Primeiro é terrível o cheiro no fim de uma prova de atletismo, é de fugir, é das coisas mais horríveis de cheirar, é mesmo impossível, e o pior é que normalmente cheira quase tão mal a quando da partida, só de escrever isto vem-me à memória o cheiro e tenho vómitos!
Segundo as provas de atletismo deixaram de ter graça. Pedem dinheiro para a inscrição e acabam a dar um t-shirt sem graça nenhuma, mas isso não interessa nada. O pior é a quantidade de gente que “corre” agora, e foi mesmo isso que me fez deixar de correr.
A última prova que fiz foi na ponte 25 de Abril, e já não era a primeira vez que a fazia, mas naquele ano, mexeu mesmo com os meus “nervos”.
Era tanta gente, mas tanta gente que parecia que no fim da prova iam dar notas de 500€. E quando supostamente se deu a partida eu não conseguia correr, e eu queria correr, era por isso que ali estava, mas qual quê, era tanta gente, mas tanta gente e a maior parte não estava lá para correr, iam ver, conversar, velhinhas a andar, pais com carrinhos de bébé a passear… sim, eu seu que toda a gente tem direito, mas estas modas que destronam o propósito original das coisas eu não intendo. Os primeiros 4 metros passei o tempo todo a reclamar com as pessoas, o que lá foram fazer se não era para correr? Ao menos que deixassem passar quem lá estava para isso, mas o ressoltado foi apenas pessoas a olhar para mim como se a maluca fosse eu. Eu sei que fazem uma partida primeiro para os “campeões”, mas também sei que eu não pretenso a essa categoria, mas a segunda partida é uma palhaçada para quem não está á frente e mesmo assim quer correr. E depois é levar com aqueles cheiros todos, os cheiros dos velhos que deviam ter os ténis em sacos com bolas de naftalina, e o cheiro de quem ao fim de cinco metros já vai lavado em suor, um horror. E depois a quantidade maluca de gente que começa a meter medo, e se ofendo mesmo algum maluco e me empurra daqui a baixo?! Lá me calei e lá fui tentado avançar, mas não é que comecei a sentir a ponte a mexer!, como é que vos consigo explicar… quando pensava que o meu pé ia bater no chão, o chão não estava lá, estava uns centímetros mais a baixo, e ao prestar melhor atenção, não era eu que estava a ficar maluca, era mesmo a ponte que com toda aquela gente oscila, só que ao fim de algum tempo estava tão agoniada que já devia ir azul.
Digo-vos uma coisa, assim que consegui chegar a Alcântara, fugi daquela gente toda, meti-me num táxi e com o dinheiro que levada nas meias paguei o táxi e fui direitinha aos pastéis de belém.
E pronto, foi assim que deixei de correr.
Sei o que devem estar a pensar, deixava de participar em provas e corria só por gosto, não é?
A questão é que ao dar um tempo a esta actividade, quando voltei a tentar já não fui capaz, já não era a mesma coisa, e o corpo já não queria ter nada a ver com aquilo.
Por isso agora sempre que o médico que manda ir dar uma corridinha, eu tenho vontade de o mandar ir ele…