Não sei o que se passa, acho que não se pode dizer que sou vaidosa (nunca pensei em mim assim) mas sempre tentei arranjar-me, afinal o que as pessoas vêm de nós (em nós) faz uma primeira ideia da pessoa e há estudos que dizem que essa primeira ideia que quase que é inconsciente fica marcada e traduz a forma como vamos tratar essa pessoa. Bem, julgo que não é por isso que gosto de cuidar de mim, julgo que é um todo, faz parte da minha personalidade, e claro, sabe sempre bem quando alguém diz que estamos bonitas, ou que gostam dos nossos sapatos, ou nos perguntam onde compramos tal peça, afinal acaba por ser também uma forma de elogio ao nosso bom gosto.
Mas como disse, não sei o que se passa comigo, desde que estou aqui a trabalhar que tenho vontade de vir de fato de treino e chinelos... não tenho vontade nenhuma de me cuidar.
Ainda ontem quando ia para me calçar, sabia que tinha uns sapatos que ficavam melhor com a "toilette", mas a preguiça falou mais alto e acabei por calçar as botas que tinha andado no dia anterior que por sua vez também não as tinha arrumado. E hoje foi a mesma coisa.
Gostava de aqui publicar uma foto das ditas botas, mas eu escrevo este blog no trabalho e este computador é uma praga, por isso não quero ligar o meu rico telemóvel a este bicho, mas acreditem em mim que estas botas, bom, como hei de dizer, acho que já as posso chamar de vintage.
Á décadas que a minha mãe discute comigo para eu deitar estas botas fora, "não vais com essas botas à entrevista de emprego, pois não?" ao que eu respondia, porque não, assim vêm que sou pobre e preciso mesmo desse emprego. "Não vais com essas botas para o trabalho, pois não?", ao que eu respondia, porque não, assim vêm que o que me pagam não dá nem para comprar umas botas novas. Mas este meu argumento na realidade nunca funcionou, e talvez a minha mãe tenha razão e eu á muitos anos que já devia ter deitados estas botas fora, mas não consigo. Elas já estão feitas aos meus pés, e são fáceis de calçar e descalçar.
E eu sou terrível para deitar coisas fora, a roupa uso até mais não e depois de começar a ter vergonha de andar com ela, uso-a por casa até já nem dar para pano do pó, mas sapatos não dá para deixar de andar na rua e passar a andar por casa, simplesmente não dá. Ando à espera do dia em que o fecho dela encrave e eu tenha de usar uma tesoura para as descalçar para assim as por no lixo (sim eu até tenho vergonha de as dar).
Sei que no fim desta história, ficam a pensar, mas como é que ela no inicio pode dizer que gosta de se arranjar quando anda com coisas tão estragadas? Tirando estas botas que já são praticamente um dinossauro, o resto das coisas eu trato bem ou pelo menos eu acho que trato bem, e já aconteceu por várias vezes alguém adorar uma saia minha que era da minha mãe e tem mais de 40 anos (o que é um duplo elogio, pois ainda me serve), ou umas sandálias com mais de 20, porque são lindas, e parecem novas e o melhor é que já ninguém tem igual e já nem podem arranjar, são só minhas. Será que é isso que me apego às coisas, a ideia de que se tornam especiais, únicas e apenas minhas?
Enquanto descrevia as minhas tropelias nos diversos trabalhos que já tive, referi algumas vezes que vos ia contar os problemas que tive por trabalhar a recibos verdes.
Primeiro tenho que dizer que à décadas que amaldiçoo-o o Mário Soares por ter implementado este sistema em Portugal!
Sei que sim, existem algumas pessoas que trabalham verdadeiramente a recibos verdes, mas deve ser apenas uns 5% de todos os recibos verdes que existem neste país.
E continuo a dizer, se essas pessoas que realmente trabalham a recibos verdes, talvez também pudessem criam uma empresa unipessoal e prontos, e até o negócio podia evoluir e contatavam mais pessoas, o que seria fantástico.
Podem dizer-me "então e os atores?", bem, podiam todos trabalhar para agencias que por sua vez lhe arranjavam constantemente trabalho. E os fotógrafos, a mesma coisa, ou estavam ligados e a trabalhar efetivamente para uma editora (com várias publicações) ou criavam eles a sua própria marca e pronto. Resumindo, para mim os recibos verdes simplesmente não deviam existir, porque a grande maioria é apenas uma forma das empresas não contratarem, despedirem mais facilmente, não fazerem descontos, etc. etc...
Claro que quando comecei a trabalhei e deixei de receber por esquemas ainda mais esquisitos, os recibos verdes pareceram-me muito bem! Assim ia fazer IRS, descontos para a segurança social (para um dia ter segurança e reforma...), mas rapidamente se transformou num pesadelo.
Porquê? Porque sou pobre, e para quem é pobre nunca recebe o suficiente, e quando somos nós a fazer os nossos próprios descontos, mas estamos com algum tipo de corda ao pescoço, enganamo-nos a nós mesmo e dizemos, este mês não vai dar, mas para o mês a seguir ao pago a dobrar, e assim se cria uma bela de uma bola de neve.
Mas nunca imaginei a gravidade desta bola de neve até ter ficado a trabalhar a contrato e assim pensei, agora é que vou pagar todo o que devo, e fui-me informar de tudo o que devia... E IA TENTO UM FANICO.
Já não posso precisar ao certo o total da minha divida, mas quando recebia o ordenado ia pagar sempre dois meses em falta (às vezes a minha mãe ajudava-me e conseguia pagar três meses), mas sempre com os juros da demora dos pagamentos, e assim posso-vos dizer que paguei mais de 6000€, PODIA TER COMPRADO UM CARRO!!!!!
Sim grande parte do valor foi por causa dos juros, mas puxa, não se faz, não para o que eu recebia, se calhar se tivesse dinheiro e tempo e tivesse a ajuda de um advogado talvez não tivesse de ter pago tanto, mas para quem não tem tempo de andar a procurar ou ter ajuda para perceber o sistema, o sistema também não ajuda, quer o dinheiro e mais nada!
E é devido a este facto quando estou com alguém e calha em conversa as reformas e alguma pessoa já mais velha me diz, "mas achas que no teu tempo vais ter reforma?" eu viro bicho e passo-me completamente, porque com o dinheiro todo que eu já dei à segurança social, ai deles que não me deem reforma!
Hoje encontrei um senhor com quem trabalhei no meu ex, ex-trabalho (trabalho #8) eu queria por tudo que ele não me reconhecesse, não sei ao certo qual era o meu medo, se era o senhor achar que eu "foi de cavalo para burro" ou se era recordar tudo o que passei nesse trabalho.
O senhor reconheceu-me e também ele nunca mais para lá trabalhou e ele tinha a mesma opinião que eu sobre o dono da empresa. Se ele achou que eu estava pior, bem, ele realmente em tom de confidencia também me disse, "mas isto aqui não é muito melhor, pois não?", eu limitei-me a dar uma risadinha forçada e parva, e não cheguei a responder.
A verdade e que me trouxe tudo de novo à memória. E como se o passeio pelas lembranças más não fosse o suficiente, dois colegas aqui onde estou começaram a discutir, mas a discutir feio, a bem dizer quanto a mim o meu colega do armazém foi um senhor, tentou ao máximo não discutir e acabou por virar as costas ao comercial, sei que algumas pessoas podem não achar esta melhor das soluções, mas é o que eu teria feito também. Já o comercial continuou a discutir sozinho e até foi fazer queixas ao chefe. Eu não compreendi o contexto do problema, mas gritar não me parece ser a melhor das atitudes, e muito menos porque a empresa tem loja aberta ao publico e estavam clientes da loja, como tal para mim independentemente da razão o comercial perdeu-a tudo, simplesmente não se faz!!
E claro eu entro logo em modo alerta branco, o que para mim significa que entro em tal estado de ansiedade que fico a ver todo branco, deixo de conseguir discernir, agir, acalmar-me pensar que eu não estou envolvida, não é nada comigo, simplesmente não consigo e acho que foi a outra empresa que me estragou muito (não foi a única é claro) a este nível.
Lembro-me como se fosse hoje quando nessa ex, ex-empresa onde trabalhei, o irmão do dono decidiu ir embora e levar tudo o que era dele, entramos logo em pânico porque sabíamos que a besta do dono da empresa se ia passar e quando ele se passava levava tudo e todos atrás. Ainda o outro lá estava a levar o que supostamente era dele, entra o meu chefe com um machado na mão, não imaginam o pânico e terror que vivi, eu não consigo passar pelas coisas como se estivesse a ver um filme, eles eram pessoas que eu conhecia, as coisas não se resolvem assim! Ora foi machada, murro cabeças enfiadas em tico-ticos a trabalhar, etc., etc., etc. vá lá que tirando roupa rasgada e algum sangue, acabou por não ser necessário chamar policia, GNR ou ambulância (ainda não sei como) e acreditem que eu queria chamar, mas não me deixaram.
Passei o resto do dia a tremer e a chorar.
Eu sei (acho) que ninguém me ia bater a mim, mas imaginem que eles se matavam, eu não queria ver isso, e nem me ia meter no meu de duas bestas de 90 quilos quando eu na altura só pesava 46..., mas faz-me confusão não poder fazer nada, não poder chamar as pessoas à razão.
Contei-vos (trabalhos #10) uma versão resumida dos meus trabalhos, mas posso-vos dizer que este é o uma 16 trabalho (não emprego, trabalho!), se gostava de ter um percurso só de um ou dois? Sim, claro que gostava, e não me venham dizer que já não há empregos como no tempo dos nossos pais, porque eu conheço muita gente da minha geração que ainda não teve mais do que dois ou três.
E ninguém pode dizer que sou preguiçosa ou que tenho medo dos desafios (bem, isso até podem dizer, porque eu vivo constantemente borrada de medo) a necessidade fala sempre mais alto (na minha cabeça) e eu vou a todos.
Bem, quase todos, se me perguntarem do que me arrependo? Arrependo-me muito de alguns que não aceitei, porque como não aceitei não faço ideia de que desafios e aventuras ia passar, porque não passei, mas tido isto, sim, há um que eu me arrependo muito!
Primeiro, quase no inico de ter saído da universidade, 80% dos meus colegas candidataram-se para serem professores, muitos conseguiram e muitos ainda o são. E dentro dessa vaga, também eu tentei a minha sorte e não é que fui chamada para dar aulas na Casa Pia (isto antes dos escândalos de pedofilia), e apesar de parte de mim imaginar se teria sido bom, se ainda seria professora como tantas das minhas colegas, na altura recusei, primeiro porque nunca tinha sentido o chamamento para ensinar, quando fiz o curso de designer, eu queria era fazer coisas (logos, estacionários, trabalhar em gráficas, fazer revistas, desenhos, ilustrações) mas ensinar não era uma delas, e depois também contou o facto de ser com crianças desfavorecidas, sabendo como eu sou, ou ia viver todos os problemas delas a duplicar e isso ia dar cabo de mim, ou ia querer trazer todas para casa, e isso também não era possível, e assim não aceitei, mas fica sempre cá dentro aquele talvez como é que seria a minha vida se tivesse aceite.
E o que me arrependo mesmo (não sei o que me passou pela cabeça) foi não ter aceite o trabalho de paginação para a revista ELLE, era e é um trabalho de sonho para mim, mas na altura este processo de recrutamento foi através de uma agencia, na altura achei normal, mas quando me chamaram explicaram-me que ia ter uma espécie de dois contratos, um com a revista e outro que me ia obrigar a dar 20% do meu ordenado à agencia de recrutamento nos primeiros meses, e eu na altura achei isso um roubo sem sentido, ARREPENDO-ME TANTO, AI MAS TANTO, se eu soubesse das coisas que ia passar, dos trabalhos que não me iam pagam, ou pagar a custo, ou tão mal pagos, porra, até lhe tinha dado 50%!
Mas na altura era tão verde e tão cheia de esperança, que recusei, e julgo que para sempre vou viver com esta magoa de ter sido tão estupida e ter recusado algo que eu sei que ia gostar tanto de fazer...
Só quero dizer mais uma coisa sobre o post de ontem (trabalhos #9), eu acho que ao expressar a minha opinião, significa que quero o bem da empresa, é ou não é? Quem se cala e faz apenas o que os chefes querem, também não querem saber da empresa, então porque é que não sou recompensada?!
Não liguem.
Entretanto fiquei novamente desempregada, mas já só tinha mais três meses do subsidio da empresa onde tive sete anos, e confesso que não percebi quanto tempo tive da empresa seguinte onde tive um ano, nem desta ultima onde tive nove meses..., mas não tive mais de cinco meses de subsidio. E este cada vez mais reduzido até que acabou... e estive precisamente um ano desempregada.
Apesar de ter dito que devia ter aproveitado o tempo e tirado uns cursos, etc., tentei libertar-me um pouco mais, tentei aprender alguns coisas por livros, mas tudo coisas que não contam para o currículo, se só contam para mim, mas que são tão ou mais satisfatórias.
E lá foi eu a uma série tão grande de entrevistas que lhes perdi a conta, e passei por tudo, e quando o subsidio acabou, por mais do que uma vez chorei nas entrevistas que o sitio me parecia bom, em que me conseguia imaginar a trabalhar lá sem sofrimento, claro que ninguém vai dar o emprego a alguém que está com as lágrimas a cair-lhe pela cara a baixo e a pedir por favor.
E com os nervos (porque eu devo ter o coração ligado ao intestino, sempre que o coração fica aflito o intestino fica liquido...) cheguei a ter de pedir para parar a entrevista e perguntar onde era a casa de banho, 15 minutos passados lá voltei para a entrevista, cheia de cólicas e lavada em suor, e pedir imensas desculpas, escusado será dizer que não fiquei lá.
E acabei aqui, que até já vos contei como foi a entrevista, vamos lá a ver se a lolita cai ou não do arame.
Lembrei que vos esqueci de contar que numa das empresas onde fiz tratamento de dados, caiu-me uma arvore em cima do meu carro, mas essa história fica para outra altura.
Continuando com a minha saga (trabalhos #8), este ultimo trabalho fez-me muito mal, e como uma grande amiga minha me disse, eu devia parar um bocado, respirar a tratar de mim e talvez procurar um emprego numa área diferente já que esta só me tem dado grandes desgostos, mas como o meu psicólogo dizia, é evidente que eu amo esta área e tenho ainda tantas ideias e paixão, as pessoas é que são o grande problema. Também ele achava que eu devia tentar perceber as minhas prioridades, mas eu sempre em pânico com a falta de dinheiro meti-me logo, mas logo de cabeça noutro trabalho.
Foi opimo e adorei o que fiz, mas a principio era só uma substituição de uma baixa de maternidade, eu sabia à partida que não ia durar, mas eu sou parva e mantive a esperança, até porque o meu colega disse-me que a moça que eu estava a substituir estava farta daquilo e que tinha duas filhas e o ordenado era pouco e não ia compensar para ter as duas filhas num infantário e ela vir para tão longe e ainda gastar tanto dinheiro de gasolina... sim, enchi-me de esperança, até porque como disse adorei o trabalho, não era longe de casa e o ordenado não era muito, mas comparado com o ultimo ordenado que tive que eu basicamente gastei todas as minhas poupanças para ir trabalhar pois o ordenado mal dava para comer, e como eu disse, no inverno passei muito frio e tive de comprar roupa quente e para isso tive de ir às poupanças, bem como para todos os outros gastos, gasolina, telemóvel, etc., este sempre dava para tudo, menos para poupar, não sobrava para mais nada, na verdade, às seis anos que não vou de férias, que não vou comer fora, que não vou a um cinema, nada, nada de nada, e garanto-vos que isso faz mal à cabeça de uma pessoa!
Mas ela voltou.
Se bem que eu até podia ter conseguido ficar também, se não fosse o novo diretor de produto ter implicado com a minha cara, a sério, ele simplesmente não foi com a minha cara. Eu sou a pessoa mais submissa que iram encontrar e tento ao máximo pensar em todos os cenários para não ofender ninguém, mas ao fim de alguns anos de experiencia não me consigo conter com algumas coisas. Isto para dizer o quê, bem o rapaz (sim era dez anos mais novo que eu) era espanhol, e ele era apenas o diretor de produto, ele devia tratar das compras, mas ele lá no fundo o que queria era ser designer, e então queria que se fizesse tudo o que ele pensava, mas os mercados português e espanhol são diferentes, basta ver os anúncios de ambos os países ou a televisão, claro que temos pontos em comum e sim vivemos num mundo global, mas ainda temos culturas destintas, e eu sei que podia ter ficado calada e ter feito tudo o que ele dizia, mas tentava explicar-lhe porque achava que era errado, eu acabava sempre por fazer como ele queria, mas não sei se foi por o contrariar ou se porque lhe explicar as coisas como se ele fosse uma criança, ou se foi uma barreira linguista (sim o meu espanhol é como o do Jorge Jesus), o que é certo é que ele tava danado para a outra vir e eu me ir embora.
Depois de ter ficado desempregada (trabalhos #7) (novamente), passei mesmo por um mau bocado.
Eu não consegui de todo ver a luz, agora sei que devia ter investido e tirado um curso, aprendido mais qualquer coisa, feito tanta coisa, mas a verdade é que passei o tempo todo em pânico, só imaginava que tinha de poupar ao máximo o subsidio de desemprego, e como tal nem saia de casa, na realidade eu estava muito deprimida, e então não fazia mais nada durante o meu dia que não fosse limpar a casa e sentar-me ao computador a enviar currículos, enviava quer em resposta a anúncios quer para todas as empresas, mesmo todas as empresas (julgo mesmo que não existe empresa em Portugal que não tenha a certa altura recebido o meu currículo), mas foi uma altura muito má, durante um ano ninguém me chamou sequer para uma entrevista, o que me mandava ainda mais para baixo.
Comecei a julgar que não prestava para nada todo o meu percurso era lixo, eu respondia a anúncios para qualquer trabalho, eu só queria um trabalho, só queria a segurança de um ordenado ao fim do mês.
Sei de imensa gente que ficou na minha situação a aproveitou, durante o subsidio de desemprego não mandaram currículos, nem quiseram saber de mais nada, mas eu não, eu vivia em pânico, o subsidio ia acabar e eu não ia ter dinheiro para comer.
Ao fim de um ano lá começaram a chamar muito esporadicamente para algumas entrevistas (sempre dentro da minha área, mas nunca para um posto semelhante ao que eu tinha ocupado), mas só o facto de me chamarem para uma entrevista para mim já era uma esperança, que durava mais ou menos uma semana, depois percebia que não me iam voltar a contactar e voltava a entrar em desespero.
Ao fim de ano e meio fui a uma entrevista tão... insólita que senti logo ali que me iam voltar a chamar, e assim foi, e o insólito continuou, o dono da empresa chamou-me para uma entrevista com outro candidato, um senhor talvez já na casa dos sessenta, que tinha estava na mesma situação que eu, tinha sido responsável de marketing de uma multinacional e também ele tinha sofrido com a crise, mas o dono achou que eramos muito iguais tirando o facto de eu ser mulher e ele homem e ele ter pelo menos mais vinte anos que eu... como não se consegui decidir disse para irmos os dois... os dois? Mas era uma empresa tão pequena e familiar, o que iam fazer duas pessoas no marketing? E quanto é que ele ia pagar? A mim ele queria pagar o ordenado mínimo a recibos verdes, mas eu estava tão desesperada.
Na segunda-feira seguinte só apareci eu, o outro senhor deve ter topado a milhar a empresa que era, mas novamente eu no meu desespero, só insisti que a recibos verdes não ia trabalhar porque com os descontos que ia fazer por minha conta, o ordenado não me ia compensar sair de casa, já para não falar que o mue subsidio era superior ao que ele estava a propor, mesmo assim só consegui que ele me fizesse um contrato de três meses, menos mal pensei eu (parva!).
Depois foi sempre a cair, ele era um monstro pior do que todos os que eu já tinha conhecido, não comigo, pelo menos não no principio, mas sempre que ele gritava ou chamava nomes (e que nomes) a outros colegas, eu desatava a chorar (eu continuava deprimida e já tinha passado por tanto que não conseguia controlar-me, e chorava).
Ia a chorar para casa por tudo, pela maneira que ele tratava toda a gente, pelo ordenado que não chegava para nada, pelo trabalho que eu queria fazer, mas ficava sempre em águas de bacalhau porque ele não tinha dinheiro para fazer nada (cartões, catálogos, folhetos, site, newsletters, etc.).
E depois lá começou também a gritar comigo, ou porque eu tinha frio e ele não queria gastar dinheiro com a eletricidade do ar condicionado, porque eu andava com uma cara triste, e porque me estava a pagar e não via resultados (como? se eu marcava reuniões ele não ia, se ia achava que era bom demais para ele, etc.), ele estava dar literalmente cabo de mim, naquele ano que lá passei vi mais gente a sair e a entrar que nos sete anos que estive na outra empresa (e entrava e saia muita gente da outra), ninguém aguentava e acabavam por se despedir, ele até à porrada com o irmão andou (nem imaginam os nervos que apanhei).
Até que não aguentei mais e pôs-me de joelhos e pedi-lhe para ele me despedir para eu poder receber o resto do subsidio de desemprego da empresa onde estava antes, pois daqui por um ano não devia ir receber nada, ao que ele gritou que NUNCA, NUNCA HEIDE DESPEDIR NINGUÉM A MENOS QUE ISTO FECHE ATÉ LÁ OU DESPEDEM-SE VOCÊS OU METO-VOS UM PROCESSO EM CIMA POIS DAQUI NÃO VÃO RECEBER NADA.
Eu estava de joelhos e chorar, eu só queria algo que era meu, e a lição era minha, eu nunca devia ter suspendido o subsidio para ir trabalhar para ali, eu senti que aquilo não ia prestar, mas no meu medo aceitei, sim a lição era minha, e já tinha visto ele a "entalar" outras pessoas, colocar processos nelas porque estavam a dar informações à concorrência, etc., sim, ele para gastar dinheiro com advogados já não se importava.
Mas ele lá acabou por ceder... julgo que deve ter sido a mulher dele a o convencer, pois eu passava os meus dias a chorar.
E pronto voltei a ficar desempregada e ainda mais traumatizada, com as pessoas, com o mundo.
Ainda na minha saga (trabalhos), depois de sair deste ultimo trabalho, fiz várias coisas como por exemplo inserção de dados em base de dados, etc.
E, entretanto, consegui o emprego onde fiquei sete anos!
Foi um trabalho difícil foi onde tive aquela depressão que já vos contei (sei lá) pois tive durante algum tempo um chefe que era um autentico monstro, mas depois de tudo pelo que eu já tinha passado eu queria agarrar aquele emprego com unhas e dentes, eu queria lá ter ficado até à minha reforma, eu conseguia até imaginar, trabalhar até aos sessentas com aquelas colegas.
Porque apesar de tudo pelo que passei, que acreditem, tinha de ficar aqui horas e horas a escrever, eu adorava o trabalho em si, o que fazia, tinha mesmo paixão, e lutei, lutei para deixar de estar a recibos verdes e depois a contrato a té ficar efetiva e sempre que lutei consegui aumentar o meu ordenado, consegui imaginar que eu a menina pobre, bem pobre ia conseguir ser alguém, não alguém importante, apenas alguém com um carro meu uma carra, roupa comprada para mim por mim, sem ser dada, que se acontecesse algo fora do normal, uma avaria no carro, sei lá ia conseguir resolver as minhas coisas sem entrar em pânico e desatar a chorar como sempre tenho feito, porque quando não há dinheiro parece que não há solução.
Mas não, tinha de vir a maldita da crise, e com a maldita da crise a falta de clientes, a falta de dinheiro para investir, a falta de trabalho os despedimentos e BUMM
um dia chamaram-me para uma suposta reunião, e eu olhei à minha volta e tinha na sala de reuniões colegas de todas as áreas de negócio e funções e pensei, isto não é normal, o que podem querer com todos nós ao mesmo tempo, e a lâmpada vermelha no meu cérebro começou a piscar e comecei a entrar em pânico e afinal eu tinha razão, era um despedimento coletivo. O murro no estomago de todos foi tão grande que todos aceitamos sem fazer confusão.
E eu senti que todo o meu mundo tinha ruido, todos os meus sonhos, tudo e fiquei durante sei lá quanto tempo em casa a chorar, sem conseguir comer ou dormir....
Afinal tudo o que aguentei, tudo pelo que passei os sapos que engoli, a vezes que trabalhei até às tantas sem ganhar mais por isso, as coisas que ouvi e não respondi, as gripes que deixei de ficar na cama, etc., tudo foi para nada.
E ia ter de começar de novo, mesmo de novo, porque a menina pobre apesar de ter chegado a responsável de marketing de uma multinacional, não conhecia ninguém, e como tal, tudo o que fiz para o currículo hoje em dia não vale de nada se não existir uma bela de uma cunha.
Continuando a minha saga (trabalhos #1, #2, #3, #4 e #5), fiz, entretanto, outras coisinhas que iam aparecendo, mas como tinha contas para pagar, acabei por aceitar o que a meu ver (pelos menos na minha modesta opinião até ao presente momento) o PIOR TRANALHO DO MUNDO, fiz TELE-MARKETING!
Si, é um trabalho que simplesmente não devia existir, acho que dentro do género, apoio ao cliente faz todo o sentido, é um trabalho que deve existir, ter profissional competentes dentro das áreas em questão, e deveram ser bem pagos, mas, tele-marketing não devia de todo existir, ninguém quer ser chateado, incomodados que coisas que não necessita, não devia existir, só chateiam as pessoas e as pessoas que o fazem por sua vez também ficam chateadas, acho até que é algo que faz mal à saúde, física e especialmente mentalmente!
Física porque por exemplo eu fiquei um pouco moca de um ouvido, pois os auriculares eram da idade da pedra e eu tinha de por o som no máximo e pressionar o mais que podia o auscultador ao ouvido, e mentalmente porque se a pessoa do outro lado nos rejeita, sabemos que não valor receber nada, e como tal temos de tentar ser mais persuasivos, e depois tratamos mal e nós queremos tratar quem nos trata mal também, é uma pescadinha de rabo na boca sem sentido.
E é como eu digo é uma função sem qualquer sentido, todo o dinheiro que as empresas usam a pagar mal à pessoas que infelizmente se vêm forçadas a fazer este género de trabalho, deviam investir em publicidade e outros meios de marketing a tornar o seu produto ou serviço apelativo ao publico!!!
Mas ainda estive um ano a fazer esta porcaria e a sentir-me um lixo...
Ainda sobre o trabalho #4, eu adorei a parte dos fotolitos, do acerto destes para impressão, dos cortantes, do cheiro do papel e da tinta, mas continuando, fiquei novamente desempregada e novamente não cancelei os recibos verdes (sim um dia vou vos contar essa saga).
Mas por sorte (ahahaha sorte, eu) arranjei logo outro trabalho que para mim parecia um sonho tronado realidade.
Eu sou completamente desvairada por revistas e livros de culinária, por mim, tinha salas e quartos cheiros deles, e não gosto só de adquiri-los, adoro lê-los e fazer todas as receitas de trazem.
Por isso quando arranjei um trabalho numa revista de culinária parecia mentira, fiquei tão contente!!!
Fazia a paginação e o tratamento das imagens.
Ok, era outra vez numa cave da vivenda dos donos da revista, e sim, era escura e nem balde para o lixo eu tinha, mas nada disso importava, ERA UMA REVISTA DE CULINÁRIA.
E sim, também tinham o habito de me trancar lá dentro com o cão, mas este não cheirava mal, mas eu não gosto nada de ficar trancada (entretanto até devo der desenvolvido uma espécie de fobia a ficar trancada, entro mesmo em pânico) e às vezes esqueciam-se mesmo de mim, já para não falar que no fecho da revista ficava a trabalhar até de madrugada, mas nada disto importava, ERA UMA REVISTA DE CULINÁRIA.
Só no primeiro mês disseram-me que o advogado não tinha feito o contrato, e que pagavam tudo junto assim que eu tivesse contrato, no segundo mês a mesma história, e não cheguei ao terceiro porque sou pobre e preciso de dinheiro e apesar de ser uma revista de culinária eu também precisava de comer, já para não falar no dinheiro que gastava para me deslocar até lá.
Ainda fiz queixa deles em todos os portais de emprego, etc. e até fui pôr-me lá à porta, eles fecharam a "contratar" outra pessoa que eu avisei que eles não pagavam... até que não podia mais continuar a ir para lá só para avisar as pessoas e tentar que me pagassem, a revista também só durou mais duas edições e, entretanto, acabou tal como a editora que eles tinham, é claro que podem ter "aberto" com outro nome.